O terremoto que atingiu a Venezuela em junho de 2023 deixou um rastro de incertezas e desespero, e foi nesse cenário que Jorge Bastidas, um programador venezuelano radicado na Argentina, decidiu tomar uma atitude. Enquanto buscava notícias de seus familiares, sem sucesso, Jorge percebeu que muitas outras pessoas também estavam desesperadas para saber sobre seus entes queridos. Assim nasceu o portal “Desaparecidos Terremoto Venezuela”, uma iniciativa que visa reunir informações sobre pessoas desaparecidas após os tremores.
Desde sua criação, a plataforma se tornou um ponto de referência para aqueles que buscam notícias de familiares. Em pouco mais de três meses, foram registrados impressionantes 82.610 casos, dos quais 29.486 permanecem sem contato. Esses números alarmantes refletem a gravidade da situação, especialmente diante da ausência de um canal oficial do governo para relatar desaparecidos, o que intensifica a indignação de Bastidas e de muitos outros cidadãos.
“É revoltante saber que o governo possui recursos para lidar com essa crise, mas não age”, desabafa Jorge, que se sente impotente ao ver a falta de uma resposta organizada. O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, minimizou a questão ao afirmar que não se pode basear em especulações, enquanto a realidade nas ruas é bem mais sombria.
Na corrida para criar a plataforma, Jorge utilizou inteligência artificial para estruturar rapidamente o site, que ficou online apenas quatro horas e meia após os terremotos. A tecnologia se mostrou essencial não só para o cadastro de desaparecidos, mas também para garantir que as informações fossem precisas e úteis. O reconhecimento facial, desenvolvido em parceria com um laboratório de inovação, facilitou a busca por pessoas desaparecidas em hospitais e centros de saúde.
Enquanto Jorge trabalhava para manter a plataforma em funcionamento, Daneli Hernández, uma advogada e colaboradora, buscava informações em hospitais e entre amigos na Venezuela. Juntos, eles conseguiram consolidar dados de mais de 3 mil pessoas que haviam sido atendidas nas unidades de saúde, um esforço que destaca a colaboração entre cidadãos em tempos de crise.
Histórias como a de Alceo Angelini, que registrou o desaparecimento de seu primo, revelam a importância da plataforma. Apesar de seu primo ter reaparecido, a ferramenta foi um alívio em meio ao caos. “Foi a única maneira de termos alguma esperança”, relata. Contudo, o desafio de manter a precisão dos dados é constante, e Bastidas enfrenta ataques cibernéticos e tentativas de desinformação que ameaçam a integridade do projeto.
A luta pela verdade e pelo reencontro com os desaparecidos continua, e para Jorge Bastidas, o objetivo é claro: “Não devemos esperar pelo Estado. Precisamos agir e trazer clareza para essa situação devastadora.” O portal “Desaparecidos Terremoto Venezuela” não é apenas um site; é um símbolo de resistência e solidariedade em um momento de crise profunda no país.




