A recente revelação sobre o vazamento de dados do sistema Smart Sampa, utilizado pela prefeitura de São Paulo para monitoramento por câmeras e reconhecimento facial, acendeu um alerta sobre a segurança das informações pessoais dos cidadãos. A reportagem do UOL, divulgada na última terça-feira (20), expôs que credenciais de acesso a uma plataforma de segurança ficaram disponíveis na internet por quase um ano, permitindo acesso a imagens captadas por 58 mil câmeras do sistema.
De acordo com as informações, 181 logins e senhas foram expostos, possibilitando que qualquer pessoa acessasse o sistema da empresa Sentinelx, responsável pela operação do Smart Sampa. O uso de inteligência artificial para identificar indivíduos em listas de foragidos e desaparecidos é apenas uma parte das funções dessa tecnologia, que também permite gerenciar ocorrências e despachar viaturas com base nas características físicas das pessoas, mesmo que estas não estejam cadastradas.
Em resposta ao incidente, a prefeitura se defendeu, alegando que o vazamento foi resultado de ações ilegais de um agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que mantinha as senhas armazenadas. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) enfatizou que não houve uso indevido do sistema e que o responsável foi afastado e está sendo investigado. Entretanto, essa afirmação não convence especialistas em segurança, que apontam a fragilidade do sistema de controle de acesso.
Pablo Nunes, coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), criticou a gestão municipal, afirmando que a resposta da prefeitura não corresponde à gravidade da situação. Para ele, a exposição de dados pode permitir o uso indevido dessas informações para vigilância indiscriminada de cidadãos. “Um sistema com tanto potencial de vigilância não deveria estar acessível de forma tão fácil”, declarou.
A diretora do Instituto de Referência em Internet e Sociedade (IRIS), Fernanda Rodrigues, complementa a crítica, afirmando que a vigilância não necessariamente se traduz em segurança. “O que está em jogo é a privacidade das pessoas e a possibilidade de que informações sensíveis sejam acessadas por indivíduos mal-intencionados”, alertou.
O advogado Luiz Augusto D’Urso, especialista em direito digital, destacou que o incidente configura uma violação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), responsabilizando a prefeitura pela segurança do sistema. Ele sugere que, além da investigação do servidor, é necessário revisar os mecanismos de segurança para prevenir novos vazamentos.
Este episódio não apenas levanta questões sobre a eficácia do Smart Sampa na proteção dos cidadãos, mas também expõe as falhas na gestão de dados sensíveis, reforçando a urgência de uma cultura de proteção de dados mais robusta no Brasil.




